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Cama de Cimento - uma reportagem
sobre o povo das ruas

Reportagem, Ediouro, 2007

 

Tão próximos e tão visíveis – mas, ao mesmo tempo, tão distantes e tão invisíveis. É como se fizessem parte de uma outra nação, tivessem diferentes códigos, costumes, línguas. Amedrontam mais por serem tão diferentes e tão próximos, mesclando a visibilidade com a invisibilidade. A exclusão se presta como uma linha, em todo o “nosso” território, criando fronteiras imaginárias.

 

Tomás Chiaverini não se propôs, neste livro, a fazer teses ou dissertações acadêmicas. Não buscou explicações nem, muito menos, soluções, tudo isso se pode fazer sentado num gabinete. Ele se propôs a ouvir o povo das ruas, indo até as camas de cimento. Mais do que ouvir, ficou junto, observou, com os olhos de quem está disposto a descobrir e se surpreender. O que ele queria era agir como um repórter, cuja maior habilidade é ver o que muitos não vêem mesmo que todos estejam olhando. Por essas qualidades de escutador, Cama de cimento é uma reportagem completa.

 

Num tempo em que a maioria dos repórteres se satisfaz levantando dados só por telefone, só circulando pelas rodas de celebridades e autoridades, gastando o menor tempo possível na apuração – afinal, são obrigados a fazer várias matérias por dia –, o que vemos, aqui, é a apuração lenta, a vivência com as fontes, o sentir do cheiro (por pior que seja). Não apenas ele enxerga o menino, como todos nós, cheirando cola, como está de seu lado, apalpando a depressão, a voz pastosa, a visão falha, a perda de controle motor. Estava ali também, antes, quando só havia euforia.

 

Como bom repórter, Tomás queria descobrir, e não contar o que já sabia. Constatou a deficiência de todo o aparato de assistência à população da rua, mas soube enxergar os heróis solitários, dentro e fora do governo, que tentam ajudar. Alguns ajudam despertando neles um senso de pertencimento através de uma conversa ou da arte. Uma peça reciclada se transforma numa chance de auto-reciclagem pelo belo.

 

Há desesperança, claro, muita desesperança, marcada pelo abandono, pela droga, pelo álcool. Mas, nesses circuitos, ocorrem surpresas, afetos, numa rede de solidariedade. Constatou também como se misturam emoções, tornando difícil separar mocinho e bandido, vítima de vilão. E até o prazer da dor: para muitos meninos, a rua é a suprema exclusão, mas é também o espaço possível de prazer, de sentir-se alguém.

 

É preciso estar lá para ver esses limites tênues e sutis. Foi o que Tomás fez ao cruzar as fronteiras desse país desconhecido.

 

Prefácio por Gilberto Dimenstein

 

 

*  As duas tiragens deste livro estão esgotadas na editora. Mas é possível encontrar exemplares em bom estado na Estante Virtual